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O casal aproveitou a noite quente de verão para tomar uma cervejinha. Foi um dia cheio para ambos, nada melhor que uma cadeira de barzinho na calçada. Resolveram que não iriam jantar em casa. Talvez uma pizza! Enquanto não decidiam o que iriam comer ficaram a falar de amenidades do dia-a-dia.
Carla percebeu que o marido não estava muito interessado no que ela falava. O olhar de Paulo estava preso em algo do outro lado da rua. A principio ela não desviou o olhar para ver o que estava chamando tanto a atenção dele. Ela lembrava de uma discussão feia em que eles entraram noite adentro por ela estar “policiando” para onde ele olhava. Ela não queria passar por aquilo de novo. O melhor era fazer de conta que não estava percebendo nada e continuar a contar seu relato, mesmo sabendo que ele nem estava ouvindo.
Depois de um tempo ela parou de falar e ficou com o olhar perdido no cardápio. Não estava lendo nada. Estava apenas tentando não olhar para o ponto que o marido estava olhando. Na certa não era nada demais, mas algo dizia ao seu instinto de fêmea que só podia ser para uma outra mulher que ele tanto olhava.
Passou-se quase um minuto e ele nem ao menos percebeu que ela estava quieta. Não se conteve. Virou-se bruscamente a procura da oponente. Seus olhos correram pelo outro lado da rua, entrou em carros que estavam estacionados e outros que passavam, procurou alguma janela aberta onde ela pudesse estar, e nada!
Tentou puxar assunto. Nada! Ele só dava respostas monossilábicas. Paulo continuava com o olhar preso em algo no outro lado da rua. O garçom veio até a mesa para anotar o pedido. A muito custo ela conseguiu fazer ele se concentrar no pedido.
Tão logo o garçom se retirou, o olhar de Paulo perdeu-se no outro lado da rua novamente. Carla não se conteve...
_ Pelo amor de Deus! Que raios tu tanto olhas para o outro lado da rua? – Paulo deu um pulo como se fosse arrancado de um pesadelo.
_ Quê? – procurou uma resposta – Nada! Não estou olhando nada!
_ Como assim nada? Desde que nós chegamos que tu não para de olhar prô outro lado da rua!
_ Só tava olhando aquele menino que esta pedindo esmola!
_ Ah sim! E o que este menino tem assim de tão excepcional para tu não tirar os olhos dele?
_ Nada! Estava apenas pensando nesses irresponsáveis...
_ Quem?
_ Os pais desses meninos e meninas que ficam por ai! Se esse governo tivesse um pouco de pulso tiravam eles das ruas e jogavam numa cadeia os pais deles e deixavam para morrer no fundo de uma cadeia.
_ Nossa! Não acha que esta exagerando não? São apenas meninos...
_ Sim! Hoje são apenas meninos! Mas logo estarão com uma arma na mão, se é que já não as tem. Olhe bem para a “carinha de santo” que esse moleque tem.
_ Tá Paulo... Fale baixo... está chamando a atenção de todo mundo...
_ Esse é o problema – olhou confiante e desafiador para as pessoas que estavam nas mesas próximas -, ninguém quer enfrentar a verdade, só querem ficar em suas casas lamentando em frente a tv...
_ Tá bom... ta bom...
_ Ta bom nada! Onde está os pais desse moleque? Garanto que está na outra esquina só esperando o guri levar uns trocados pra ele tomar uma cachaça ou fumar uma pedra...
_ Paulo, o menino está vindo para cá...
_ É bom! Quero perguntar para ele onde estão os vagabundos que o pariram...
_ Aí Paulo! Coisa mais grosseira – impacientava-se –, não vai ser rude com a criança... Ele deve ter no máximo uns dez ou dose anos!
_ Criança... criança... pois sim!
_ Oi tio! Tem um trocadinho? – pediu o menino assim que chegou próximo a mesa.
_ Tenho sim! – respondeu - . E seu pai teria também, se não gastasse tudo com drogas e trabalhasse como todo mundo.
_ Para Paulo... – falou de cabeça baixa, tentando não ser notada.
_ Não tenho pai não tio! – defendeu-se assustado o menino.
_ Ah tá! Veio ao mundo pela graça divina!
_ Sei não!
_ Aposto que teu pai tá na esquina te esperando pra pegar o dinheiro que os otários te dão.
O menino, sabendo que nada ganharia em ficar discutindo e já calejado em ser escorraçado, virou as costas e foi para a mesa mais próxima tentar a sorte.
_ Viu! São uns dissimulados...
_ Acho que tu ta exagerando Paulo...
_ É... Estou sim! Vocês têm peninha deles né?
Neste momento entra uma mulher vestida com roupas que não combinavam com os freqüentadores do bar, não que o bar fosse de muito luxo, mas suas roupas sim é que pareciam que vinham do lixo.
_ Filho, vamos embora – disse a mulher para o menino -. Já está ficando tarde, vamos perder o último ônibus. – e puxou o menino pelo braço.
Foi uma fração de segundos, mas o suficiente para Paulo reconhecer a mulher.
_ Vamos embora Carla! – disse Paulo levantando-se.
_ Como assim? E nossa pizza?
_ Vamos e pronto. Vou pedir para eles entregarem lá em casa!
_ Mas Paulo... – Era tarde, ele já havia levantado-se e dirigia-se ao caixa.
Carla confusa, procurou no fundo da bolsa por alguns trocados. Achou algumas moedas.
_ Ei menino! – chamou. A mãe ao ver Carla com umas moedas na palma da mão soltou o braço do filho. O menino correu ao encontro de Carla – ou das esmolas - e pegou as moedas que ela lhe ofertava.
_ Obrigado tia – respondeu vivamente o menino -. Deus proteja à senhora. Boa noite.
_ Boa noite! – o menino correu para o encontro de sua mãe para ir embora.
Paulo voltou e tomou Carla pela mão. Saíram. Entraram no carro sem falar nada.
Enquanto ele ligava o carro ainda pode ver pelo retrovisor, o menino indo embora de mãos dadas com a antiga doméstica de seu pai que ele havia engravidado e tentara sem sucesso convencer ela a fazer um aborto dez anos atrás.
Escutei Charles Kipfer – escritor e professor que gosto muito – dizer na BandNews Fm que a sub-literatura não cria leitores.
Respeito o escritor e professor, mas discordo desta afirmação, até porque acho muito difícil classificar o que é sub-literatura.
Comecei lendo, como quase todos os garotos começam. Lia Tio patinhas, Pato Donald e principalmente Tarzan, Batman, Supermam e outros superherois enlatados, que não considero sub-literatura, mas sim uma mídia diferente, com proposta diferente para um público “alvo” diferente.
Só passei a ler livros “sem figurinhas”, quando entrei num universo – esse sim, considerado por quase todos como sub-literatura – que era a dos antigos pocket’s de faroeste e guerra. Isto mesmo, os livrinhos de Marcial Lafuente Stefania & cia.
Com o tempo, meus pais perceberam que eu gostava de ler e compravam para mim uma coleção maravilhosa – que era semanal - editada pela Abril -, chamada “Clássicos da Literatura Juvenil”. Ali pude ler “Odisséia”, “Robinson Crusoé” – aliás o primeiro que li da coleção, e li mais de quatro vezes, sabe-se lá quantas vezes -, “Moby Dick”, “20.000 léguas submarinas”, “Tom Saywer”, “Huckberry Finn”, “Viagem ao centro da terra”, “Bem-Hur”, “As viagens de Gulliver” e muitos outros, adaptados para o público adolescente, que só não tenho hoje porque dei a coleção de presente ao meu filho.
Dos adaptadores, só lembro de nome, o maravilhoso Monteiro Lobato e das ilustrações maravilhosas de Miécio Tatti.
Eram clássicos escritos de uma forma simples para a cabeça simples de um adolescente.
Destes, parti para alguns livros de Agatha Cristhie – influenciado pelos filmes –, até chegar no “Capitães da Areia” de Jorge Amado.
Foi paixão a primeira vista. Li “Cacau”, “Suor”, “Seara Vermelha” e alguns outros até delirar com os três livros de “Subterrâneos da Liberdade”. Aí – pela influencia destes - entrei para o mundo da política e para a inconstante busca da verdade nos livros. Se a encontrei não sei, mas pelo menos eles me ensinaram a pensar em vez de só repetir o que os outros falam.
A partir deste(s), tornei-me um leitor adulto, mas sem medo de vez em quando me aventurar pelos sonhos de Julio Verne, ou nas aventuras de Ken Follet e inclusive nos universos fantásticos que concebem roteiros e desenhos maravilhosos. Falo de Franck Miller, Bill Sienkiewicz, Moébios, Jodorowsky etc.. e também de brasileiros como Luiz Gê, Miguel – Mike – Deodato – Pai e filho – e Mozart Couto.
Não apresente Chopin e Beethoven a periferia que sem dúvida ela nunca gostará de Chopin e Bethoven.
Não apresente Arlindo Cruz e Carlos Cachaça ao asfalto que sem dúvida ele nunca gostará de Arlindo Cruz e Carlos Cachaça.
O “hábito da leitura” vêm, como a própria expressão diz: pela leitura.
Quem não lê, nunca gostará de ler.
Adoro o “O velo de Onagro”, “Trabalhadores do Mar” e o “Germinal”, mas se tivesse lido Henoré de Balzac, Victor Hugo e Emile Zola na época em que lia Bob Kane, Lee Falck, Jack Kirby ou Maurício de Souza, provavelmente hoje teria ojeriza aos livros.
Estava lendo sobre o último filme de Rodrigo Santoro – “I love you, Philip Morris” com Jim Carrey - e lembrei de comentários ditos por várias pessoas, inclusive por “formadores de opinião” que ridicularizavam Santoro por sua atuação em “As panteras”, pelo fato de seu personagem não ter um diálogo sequer.
Talvez agora, ao lado de um ator mundialmente famoso e principalmente sendo um ator norte-americano – ou americano, como costumamos dizer, como se não morássemos no continente americano – as pessoas comecem a sentir orgulho por terem um ator brasileiro atuando no mercado cinematográfico mais famoso do mundo.
Tá!... Mas onde entra o esquecimento nisso tudo?
É que parei para pensar: qual foi o último artista brasileiro que havia atuado no cinema norte-americano, e fui perceber que foi Carmem Miranda. E sem dúvida ela esta esquecida por uma grande maioria de brasileiros. Muitos nem sequer sabem quem foi, ou que apesar dela ser um orgulho nacional – para alguns - , na realidade – de nascimento - era portuguesa e não brasileira.
Aí acabei me envergonhando, pois só enquanto lamentava o esquecimento da Pequena Notável – como era chamada Carmem – é que fui lembrar de Sônia Braga, que exatamente quando estava “bombando” no Brasil, foi tentar uma carreira internacional nos Estados Unidos.
Lá, Sônia Braga fez muitas pontas em seriados de tv e no cinema. Fez também filmes em que não era coadjuvante e, é bem verdade que por aqui pouco ou quase nada se ficou sabendo. Eu por exemplo só vi um filme em que ela faz uma famosa ex-prostituta que havia tornado-se fazendeira e uma participação dela em um seriado de humor que não lembro o título.
Mas será que não esqueci de outros? Talvez haja outros que esqueci. Nós nos esquecemos facilmente de muitos e de muitas coisas, e isso é ruim.
Mas o que seria do homem se não tivesse o “dom” do esquecimento?
Às vezes, amigos ou familiares muito chegados tem de separarem-se. Nos primeiros dias a saudade é muito grande, mas com o tempo ela vai-se amainando até cair no quase ou total esquecimento.
O que seriam dos finais de relacionamentos amorosos se não tivéssemos como esquecer a pessoa (ex)amada? Viveríamos infelizes pelo resto da vida e não haveria a possibilidade de nos apaixonarmos por outras pessoas.
O que dizer da morte de pessoas queridas então? Como levaríamos nossas vidas se não esquecêssemos em nenhum momento a falta que nossas perdas nos fazem?
Claro que não esquecemos totalmente, mas podemos, digamos assim, abstrair destas lembranças para podermos continuar a levar nossas vidas.
Sempre falo que não podemos julgar conceitos de sociedades distintas a nossa com nossos conceitos.
Assim como achamos errado o uso da burca, os povos que a utilizam devem achar errado mulheres nuas em revistas.
Mas depois do caso da Uniban, fiquei confuso.
Deve haver muitos Talibãns no ocidente...
Era para ser eterno, mas agora preciso de um tempo!
Mas como assim? O que eu sentia não era verdade?
Fiz até mil planos. Era para toda a eternidade...
Será que o amor é algo que só vive de momentos?
Quando convidei-te para vir era para sempre!
Fiz do resto de minha vida, toda a minha vida
Tinha certeza. Era todo e pra sempre certeza!
Só não havia contado com as dores das feridas.
Agora quero um tempo!
Que tempo?
Por acaso tem poder a distância
De dar ao coração algum alento?
Agora quero um tempo!
Que tempo?
Será verdade que dando um tempo
Pode-se apagar todo um sentimento?
Ele disse para ela que precisava de um tempo!
Ela respondeu que quem dá tempo é meteorologista!
Eles, nunca mais de viram
O mar tinha turbulências que agitavam suas ondas,
Queria eu transformar em campos de mansidão
o mesmo mar que tem belezas que sempre me seduzem
Que mesmo agitado, não transbordam meu coração.
O mar tinha um modo só seu de me fazer alegre
Que sendo belo e imenso ainda voltará a ter
E por ser único, imenso, amigo e poderoso
Sei que tornará a calmaria que sempre me deu prazer. Com amor para a Toca
Na vida ele sempre caminhou para frente.
Até que um dia deu de cara no muro.
É! você não sabe, mas agora já sei,
Porque nossa vida é essa calmaria.
É que mesmo sempre estando juntos
Já não somos pra nós uma boa companhia.
Não basta se estar juntos todo dia
Se não existe mais uma cumplicidade
Pois se em nada mais nos completamos
E juntos somos apenas nossa metade.
Se seu sorriso é sozinho
Seu pranto é incompreendido
Já deve ser hora de eu partir.
Melhor é viver de saudade
Talvez assim dessa maneira
Um de nós ainda possa sorrir.
Não cheguei a ler essa notícia: “Traficantes ajudam taxistas – ou moradores, não lembro bem – a prender assaltante”, apenas ouvi na chamada do “Jornal o Sul” pela tv.
Na hora lembrei da música “Acorda Amor” do Julinho da Adelaide – Leia-se Chico Buarque – onde o cara chama o ladrão para lhe ajudar quando percebe que a policia está no seu portão.
Que traficantes “cuidam” da população onde atuam quando falta o estado para o fazer, já não é nenhuma novidade. Mas agora parece que também estão fazendo o papel da policia! Claro que para preservarem os seus negócios!
É uma total inversão de papéis. Se continuar assim, logo veremos adolescentes presos porque tinham livros e cadernos escondidos no meio da droga ou, quem sabe a pessoa ser presa porque tem a nota fiscal do produto que esta carregando ou, ser preso porque pagou seus impostos ou, etc... etc...
Se eu tivesse ao que recorrer
Nessas noites frias de outono
Recorreria há um pouco de alegria
Para acabar com esse abandono.
Se eu soubesse fazer uma oração
Imploraria a todos os santos
Por um pouco de alegria
Para temperar os versos do meu canto.
Carlos está ansioso. Na última vez que olhou o relógio era cinco e trinta. Amanheceu e ele não conseguiu dormir um instante sequer. Finalmente havia chegado o dia.
Em sua cabeça, sua vida passava como se fosse um filme. Um filme triste mas que finalmente teria um final feliz!
Ele volta a um dia quente nos anos setenta. Uma viatura para em frente a sua casa. A mulher com uma cara de carrasco e dois policiais falam com sua mãe. De onde ele está não consegue escutar o que eles falam mas sabe que não é algo bom pois sua mãe cobre o rosto e chora. Assim que aquelas pessoas vão embora ele corre para a mãe que lhe fala entre soluços e gemidos que seu pai morrera em um atropelamento.
Os anos que se seguem não são muito fáceis para os dois. Carlos é obrigado a abandonar os estudos e trabalhar para ajudar a mãe a sustentar eles dois e seus irmãos. O dinheiro que ele consegue nos pequenos biscates é insuficiente para o sustento deles.
No começo dos anos oitenta Carlos é levado para uma “Casa Correcional para Menores Infratores” depois que foi preso por pequenos furtos. Lá na “Correcional” a vida fica pior ainda. Os funcionários os tratavam de forma desumana e a única ajuda que ele pode esperar era a de outros detentos.
Uma noite vem à fuga. Quase todos os adolescentes são pegos novamente mas Carlos consegue escapar. Muda-se de cidade e começa a viver de roubos e pequenos tráficos. Não ganhava muito mas era o suficiente para ir levando a vida.
Num final de semana Carlos vai a uma festa e conhece Tereza com quem tem um filho: Mateus. Carlos, agora um pai orgulhoso retorna a cidade natal para apresentar esposa e filho a sua mãe mas, fica sabendo que ela morreu, não se sabe lá do que, logo que ele havia sido levado para a Casa Correcional. Carlos sempre achou que foi de desgosto, mas nunca teve a certeza.
O tempo foi passando e chegou o ano em que o Brasil iria escolher o seu presidente depois de muitos anos de eleições indiretas. Para Carlos aquilo tudo não tinha importância alguma. Há muito ele havia esquecido o que era ser um cidadão. Tinha os seus iguais e seus códigos de condutas. A política em nada o interessava. Todos estavam indo as urnas e ele apenas esperava no local que fora combinado por um carregamento que ele havia acertado depois de guardar um bom dinheiro fruto de muitos roubos e vendas de drogas.
Na hora marcada o insuspeito carro lhe entregou a mercadoria e levou o pagamento. Agora ele iria ser grande no negócio. Não venderia mais para o “patrão” da boca, ele seria seu próprio chefe. E assim seria, não fosse o acerto entre a polícia e o “patrão”. Não teve tempo de vender uma só “trouxinha” e a polícia invadiu sua casa e o levou preso. O que mais doeu em Carlos foi ver o espantado Mateus - na época com doze anos – ver seu pai ser algemado e arrastado para dentro de um camburão.
Nos primeiros anos de cadeia Carlos recebia a visita regularmente de Tereza e Mateus. Carlos prometeu aos dois que quando saísse dali tudo seria diferente. Eles teriam uma vida descente e os dois poderiam sentir orgulho dele. Carlos procurou não se envolver em nenhuma confusão na prisão. Começou a aprender a ler e escrever com um pastor que lá ia atrás de ovelhas para seu rebanho.
Num dia de visita, Tereza veio sozinha e lhe falou que iria se casar com um “homem descente” – dessa vez de verdade, em igreja e tudo – e Mateus iria com ela e o novo marido para uma outra cidade. O já esculhambado mundo de Carlos desmoronou, mas com a ajuda do pastor e de outros crentes “residentes” da cadeia ele se ergueu.
Prometeu para si mesmo que terminaria os estudos que agora estava podendo ter na cadeia e guardaria cada centavo que ganhava nos trabalhos que desempenhava na prisão para quando sair dali e poder ir buscar seu filho: Talvez ele tivesse perdido uma mãe e uma esposa de desgosto, mas o filho não! Mateus veria que ele era uma pessoa mudada. Que era um homem descente assim como aquele que Tereza arranjou para colocar em seu lugar.
Não culpava Tereza! Ele é que fora culpado por não agir direito. Desejava que ela fosse feliz com seu “homem descente”, ele agora só pensava em sair e reencontrar o filho.
Os dias foram passando lentamente até que Carlos não conseguiu dormir a noite toda de tão ansioso por haver finalmente chegado o dia.
Carlos foi ao refeitório para o seu último café da manhã na prisão. Não sentiu gosto algum naquele café horrível que era-lhe servido todos os dias durante os últimos longos anos de prisão. Despediu-se dos poucos amigos que fizera ali dentro, principalmente do pastor Roberto.
Era dez horas quando vieram buscar-lhe na sala de triagem. Deu um desinteressado aperto de mão no cínico diretor que falava para ele e mais dois detentos que ganhavam junto com ele a tão sonhada liberdade naquela manhã : _ Espero não velos mais por aqui senhores, as acomodações são poucas! Como podem ver, sai três e entra doze no lugar! – apontava com seu gordo dedo para uma janela gradeada por onde se podia ver um pátio ao lado. O mesmo pátio que recebera Carlos anos atrás.
É meus senhores – continuava o discurso – isso aqui é um inferno e como existem muitos diabos como vocês, isso não acaba nunca! – Carlos aproximou-se da janela e viu os dois camburões que “despejava” doze novos detentos.
Carlos estava prestes a ganhar a liberdade mas preferiria morrer a não ter visto o que viu. Entre os doze infelizes que chegavam para ficar em seu lugar naquele odioso inferno, haviam um jovem que em muito se parecia com ele, e Carlos não tinha dúvida quem era esse jovem que ali chegava algemado, Era, o motivo pelo qual decidira ter uma nova vida, era o seu tão querido filho Mateus.